Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo de Juiz de
Fora (MG)
É linda a devoção à Mãe de Jesus. Ela tem origem na escolha
feita pelo próprio Criador, Deus Pai, que prometera a salvação aos primeiros
humanos, escolhendo Ele, Deus, uma mulher, cuja descendência esmagaria a cabeça
da infernal serpente, personificação do mal.
Quando o Arcanjo Gabriel anunciou a Maria que ela seria a
Mãe do Salvador, ficou patente que havia chegado a hora do cumprimento da
promessa do Pai Eterno. O celestial mensageiro a saúda: Alegra-te, ó cheia de
Graça! O Senhor está contigo!” Na simplicidade da jovem de Nazaré, ao esboçar
sinais de justificado temor, o Anjo lhe diz: “Não tenhas medo, Maria,
encontraste graça junto de Deus, tu conceberás e darás à luz um Filho e lhe
porás o nome de Jesus; Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo”. E prosseguindo
o celeste diálogo naquele momento único da história da humanidade, o Anjo mais
uma vez a tranquiliza: “ O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do
Altíssimo te cobrirá com sua sombra; por isso aquele que vai nascer será
chamado Filho de Deus.” ( Cf. Lc.1, 26-38)
No Concílio de Éfeso, que aconteceu entre 22 de fevereiro a
31 de julho do ano de 431, por causa de heresias surgidas, discutiu-se sobre
temas cristológicos e mariológicos, entre os quais a missão de Maria na
história da Salvação. Perguntou-se se seria correto atribuir a Maria o já
tradicional título de Mãe de Deus, ou se deveria se limitar a invocá-la como
Mãe de Jesus ou Mãe de Cristo. Os bispos e teólogos presentes chegaram à
conclusão que negar o título de Mãe de Deus a Maria seria uma heresia
cristológica, uma negação da divindade de Jesus, uma vez que o que nasceu de
Maria, como afirmara o Anjo, não era um homem que depois se tornaria Deus, mas
o próprio Filho da Trindade Santíssima encarnado, Deus e Homem verdadeiros.
Ficou definido para sempre que Maria, a Mulher prometida no Gênesis, não só
poderia, mas deveria ser invocada como Theotókos, Dei Para, Mater Dei, Mãe de
Deus.

Uma versão antiquíssima afirma que, neste momento sublime do
final do Concílio de Éfeso, São Cirilo de Alexandria, o grande teólogo do
mencionado sínodo, teria se ajoelhado diante da Aula Conciliar e rezado pela
primeira vez: Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na
hora de nossa morte!” A expressão tornou-se oração eloquente nos lábios do povo
que estava de fora do recinto, ansioso à espera da grande notícia, saindo em
procissão com festivas aclamações a Jesus e a Maria. A fervorosa prece passou a
ser rezada todos os dias e por todos os cantos pelos fiéis cristãos como até
hoje, na segunda parte da Ave Maria.
Quando o povo brasileiro se reúne fervoroso no dia 12 de
outubro, para saudar a Rainha e Padroeira do Brasil, ele canta vibrante: Viva a
Mãe de Deus e Nossa, sem pecado concebida, Salve, ó Virgem Imaculada, a Senhora
Aparecida. Ele continua professando a fé na verdade bíblica da promessa da
Salvação; ele continua proclamar a verdade eclesial inspirada no Concilio de
Éfeso; ele continua a exaltar a divindade de Cristo; ele continua a louvar a
Mãe do Salvador, bendita entre todas as mulheres. Ele continua a manifestar sua
fé na materna intersecção daquela que ampara, protege, ama e leva ao Pai, em
nome de seu Filho Jesus, as preces de cada um, as esperanças de cada coração.
A devoção a Nossa Senhora Aparecida teve início nas
proximidades da cidade paulista de Guaratinguetá, em outubro do ano de 1717. A
comuna se preparava para a ilustre visita do recém chegado de Portugal, o Conde
de Assumar, terceiro governador da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro (ou
dos campos das Gerais). Foram contratados três pobres pescadores para
fornecerem peixes para o banquete. Eram João Alves, Domingos Garcia e Vicente
Pedroso, que apesar de muito trabalho, nada conseguiam com suas redes no rio
Paraíba. Homens de fé já apelavam para Deus a fim de que conseguissem os
peixes. Eis que, derrepende sentem as redes pesarem, mas ao içamento, não viram
peixes, mas apenas um pequeno objeto de cor escura que ao verificarem se
revelou como pequena imagem da Virgem Maria, porém sem a cabeçinha. Ao lançarem
segunda vez, se repete o fenômeno do peso e desta vez, vem-lhe às mãos a
pequena cabeça que logo ajustaram à parte anteriormente pescada. Ao calor da
prece no fervoroso coração dos humildes pescadores, lançando terceira vez as
redes, vêem-lhes tal quantidade de peixes que não puderam senão associar o
fenômeno aos relatos bíblicos da pesca miraculosa. Eles apresentaram a
imagenzinha aos fiéis e o povo começou a chamá-la carinhosamente de Nossa
Senhora Aparecida. De um pequeno oratório construído para abrigá-la e acolher os
devotos, com a sucessão de orações e de milagres alcançados de Deus, diante
daquele singelo e santo símbolo, chegou-se hoje à linda basílica nacional de
Aparecida para onde acorrem milhões de peregrinos todos os anos e todos os
dias.
É o povo santo de Deus, proclamando no silêncio do sensus fidelium, verdadeiro locus theologicus, as verdades da fé que
maravilhosamente Deus vai enaltecendo na história.
Fonte:
CNBB. (
11 DE OUTUBRO DE 2013)